entropia.

isto aqui não é um texto. isto aqui nada mais é que uma tentativa de esticar a distância entre uma primeira e uma última palavra. mais ou menos como viver a vida ou como uma história de amor.

eu li. ou inventei. que quanto maior a temperatura de um sistema, maior a desorganização de suas partículas e, consequentemente, maior a sua entropia. temperaturas altas no amor são sinal de desordem?

na termodinâmica, o trabalho pode ser completamente convertido em calor, porém o calor – ou energia térmica, não pode ser totalmente convertido em trabalho. a entropia mensura essa parcela de energia que já não pode mais ser revertida. qual a parcela de energia de uma história de amor não pode mais ser revertida?

vi em um vídeo. ou inventei. que só conseguimos notar a diferença entre o passado e o futuro, porque a entropia do universo aumentou. e que mesmo que não exista um fim. que o tempo seja infinito, ainda há várias partes do universo que jamais poderemos ver. você pode amar pra sempre, mas nunca por completo!?

há que se amar a entropia, de certa forma. no passado as partículas eram mais próximas e agora elas tendem a se afastar, bem como algumas memórias. boas ou ruins. de fato, elas se afastam. de mais a mais, ninguém mais pode morrer em dois mil e treze ou catorze ou em mil quinhentos e dez.

ouvi dizer. ou inventei. que o universo foi, no início, mais compacto, suas partículas eram mais próximas. conheço alguns universos que também foram assim. o amor ocupar cada vez menos espaço não significaria mais proximidade?

o universo já não é apenas uma flutuação, onde a vida é possível. o universo também somos nós dois nos afastando. ou expandindo. com a chegada de dezembro.

isto aqui não é um texto. isto aqui nada mais é que uma tentativa de entender um pouco do conceito de entropia. mais ou menos para entender o quão irreversível é a vida ou uma história de amor.

o universo expande e acelera. por dentro, estamos sempre parados.

em dias de chuva, guarde a felicidade no bolso para que esta permaneça seca.

são minúsculos tsunamis em xícaras de café e pequenos terremotos em caixas de areia de parquinhos infantis

são infinitas e singelas tempestades elétricas no abajur ao lado da cama e pequenos suicídios coletivos em comunidades de Playmobil

são nevascas destruindo picolés no congelador e chuvas torrenciais dentro de boxes em kitnets solitárias da cidade

são tímidos incêndios consumindo pulmões (e por que não corações?) em lugares que sequer estão marcados no google maps

são pontos cegos de retrovisores que causam acidentes na sua sala de estar e enchentes que desabrigam famílias de pequeninos seres ao seu redor

são testes de armas nucleares em campos de mini golfe e são guerras frias nos 35 graus do verão aqui no sul

são condomínios inteiros de peças de lego desabando e são pinturas históricas coladas na sua geladeira corroendo com o tempo

são estantes de livros e sofás trocando as primeiras indelicadezas e são os tiros a queima roupa destruindo o seu look do dia

é o mundo inteiro e hoje, mais que nunca, é você. unicamente você e essas pequenas tragédias, completamente avassaladoras e praticamente imperceptíveis

e são seus músculos mais fortes com tendência ao sentimento

e é aquele momento devastador, em que você percebe que nunca mais será 100% feliz e isso é algo que te pertence para o resto da vida

se trata aqui de um paradoxo.

não se trata aqui de uma compilação de histórias de amor, muito embora toda história de amor seja mesmo uma compilação de tantas outras histórias de amor. e de arrependimento.

 engraçado como alguém que sempre falou muito, de repente perde as palavras pelo ar. eu fico imaginando o que se passava na cabeça dela quando disse sim. porque muitas vezes depois o que ele tinha eram as suas negativas. certa vez ela disse sim. e partiu.

 se trata aqui de uma compilação de histórias de amor, que, por hora, busca em outras histórias de amor algo que lhe empreste um pouco de saúde. como se fosse possível haver algum espaço limpo dentro dos pulmões.

e eu passo a escrever o futuro, ainda que incerto e inseguro. escrevo esperanças, felicidades, sexo, viagens, textos em blogs, músicas e até peças de teatro. eu posso até escrever que quero mesmo é encontrar a felicidade numa dessas horinhas de descuido. eu escrevo sim.

não se trata aqui de finais felizes. aqui os finais não são felizes e nem sequer tristes, são apenas o que são. e andam por aí como se nada tivesse acontecido, independente da nossa vontade.

eu queria mesmo é descobrir no que você está pensando agora, nesse exato momento e nesses outros exatos momentos que se passaram desde a sua entrada aqui no leito cinco. logo você, que sempre conversou comigo sobre tudo, agora não consegue nem me olhar nos olhos direito. eu queria ter tido aquela conversa que se espera ter, sabe? dessas de filme, em que uma pessoa abre verdadeiramente o seu coração para outra, diz suas últimas palavras, faz seus últimos pedidos.

se trata aqui de equações não resolvidas, não pela falta de inteligência, mas por outra falta. se trata aqui de um paradoxo: como ser feliz e triste ao mesmo tempo?

a verdade é que cheguei nesse estranho não lugar e eu me perco nesses acordes feitos em um piano bicolor na minha cabeça. e aí, numa tentativa de respiração boca-a-boca, eu escrevo. mas o tempo começa a corroer aquelas palavrinhas adocicadas do café da manhã. e você sente culpa por algum momento de felicidade e se culpa por todo momento de tristeza. e você não sente nada, porque não consegue ser feliz. e nem triste.

não se trata aqui exatamente de recomeços, mas de partidas e viagens. e bem sabemos que algumas viagens são absurdamente longas e simplesmente não te enviam postais ou retornam para a casa.

eu queria mesmo é me mudar logo, sabe? a casa nova tem um quintal enorme, tem árvores e eu vou plantar o que eu quiser, também quero criar galinhas. a casa novas tem três quartos, um deles é pra quando vocês forem lá me visitar. tá ficando tão bonita, finalmente vou ter sossego.

se trata aqui de uma tentativa de descoberta, de acomodar tudo aquilo que pairava somente em seu olhar e hoje adormece comigo.

eu queria mesmo é esticar aquele espaço de tempo entre a esperança e o inevitável, que não durou mais do que trinta passos e uma ligação.

se trata aqui de equações não resolvidas, não pela falta de inteligência, mas por outra falta. se trata aqui de um paradoxo: como ser feliz e triste ao mesmo tempo?

se eu morresse agora, estaria pensando no que as pessoas pensam antes de morrer. será o coração que avisa o cérebro que é chegada a hora, ou o cérebro que avisa o coração? ou será a mão da sua filha mais nova junto da tua?

dói quando se morre?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

talvez ele só estivesse dançando e cantando “I’m singing in the rain” em sua cabecinha de passarinho.

Essa noite eu sonhei que tinha um cachorro, um cachorro grande e peludo morando comigo no meu apartamento. Pra quem não me conhece isso é até bem normal, mas a verdade é que a minha relação com animais de estimação e até mesmo animais em geral não é assim coisa de filme da sessão da tarde. Não gosto muito de bicho não! Acho fedido, incômodo, não sei lidar. Não sei lidar com lambidas, pulos, cara de cachorro que se perdeu na mudança, latidos, miados, ou qualquer outra dessas estranhas demonstrações de afeto. Talvez eu tenha medo, algum trauma, sei lá. Ou só não goste mesmo.

Mas eu também não odeio, acho fofinho, bonito, respeito muito, jamais maltrataria, poderia até mesmo entrar para alguma ONG e defender alguma causa ambiental. Eu me pergunto se eu amaria e aprenderia a conviver com um bichinho, caso tivesse um. Enfim, por isso tudo é estranho eu sonhar que tinha um cachorro. Talvez eu devesse jogar no bicho, mas tenho medo de começar a jogar e de repente perder o controle, como o meu avô. Diferente de mim, meu avô gosta de bichos. Ele vem nos visitar, quase sempre porque precisa ir ao médico, e nunca fica mais que um dia. Ele diz que precisa voltar para dar de comer aos cachorros. O engraçado é que quando está em sua cidade, por vezes ele mesmo se esquece de alimentá-los.

Voltando ao meu sonho, às vezes gosto de buscar umas interpretações malucas praquilo que sonhei. Certa vez sonhei que eu trabalhava e era amiga da Angelina Jolie e do Brad Pitt, parei de gostar deles, porque no meu sonho todos aqueles filhos adotivos deles eram somente fachada. Um dos moleques falou algo em seu dialeto e eu perguntei pra Angelina o que ele havia dito. Ela não sabia, fiquei chocada ao saber que depois de anos ela não tinha aprendido a falar com o seu próprio filho e nem tinha mandado a criança aprender inglês. Como pode uma mãe não saber conversar com o seu próprio filho? Eu acho esse sonho um dos mais engraçados e a minha interpretação maluca me diz que um dia vou conhecer o casal, contar essa história, eles vão rir e quem sabe me adotar também. Quem sabe eu não sou o trigésimo filho Brangelina?! E sobre o meu sonho com o cachorro. Bem, às vezes eu deixo de tentar interpretar os sonhos, porque as interpretações podem nem ser tão malucas assim.

Minha avó também tinha uma relação esquisita com os animais, ela não era o tipo de pessoa que você poderia dizer que amava um cachorrinho ou gatinho, por exemplo. Mas ela passava manhãs e tardes na área lá de casa jogando migalhas de pão e conversando com os passarinhos. E adorava filmes com animais. Isso sem falar nas galinhas que criava no quintal, acho que desde os meus dez anos de idade eu sei contar as estórias das galinhas e assim mesmo eu amava ouvir tudo de novo quase que todo final de semana. Tinha a estória da galinha que sumiu e ela encontrou virada de barriga pra cima, de pernas pro ar na área da cozinha. Ela pensou que a galinha tinha até morrido, nunca tinha visto nenhuma sequer fazer isso! Acontece que a bonita estava é tomando sol, ou algo assim. A outra estória era da galinha que perseguia a minha tia no quintal e que só obedecia a minha vó, ela dizia que essa galinha até dançava.  Se eu fechar os olhos, consigo ver a minha avó imitando a galinha dançando. Isso sem falar nas abelhas, acho que minha avó nunca matou uma abelinha sequer. Não que abelha seja assim um animal de estimação… Então, minha avó conversava com elas até elas irem embora. Queria eu saber fazer o mesmo hoje em dia.

Talvez eu tenha sonhado com um cachorro, porque fiquei com dó de um passarinho num dia desses. Caía uma chuva torrencial aqui e ao olhar pela janela da sacada de casa vi um passarinho na rua, sem proteção alguma debaixo daquela tempestade. Ele deveria estar morrendo de frio, será que teria pra onde ir, teria se perdido do resto da sua família? Fiquei me perguntando o que se passava com aquele serzinho sozinho ali no meio do nada, no meio de tanta água. Nesse mesmo dia eu tinha olhado o céu poucas horas antes da tempestade e estava incrivelmente estrelado e minha vó dizia que quando tinha estrelas no outro dia faria sol. Gosto bastante de olhar o céu. Acho que é mais uma das coisas que herdei dela. Ela saía praticamente toda noite para olhar as estrelas, mais especificamente uma estrela, que brilhava sempre no mesmo lugar. Engraçado que daqui, da cidade que moro hoje não consigo dizer qual é. Mas eu sei exatamente o lugar da calçada da antiga casa na outra cidade em que ela parava e pra onde ela olhava.

Eu fico pensando que talvez devesse dar uma chance a um cachorro ou a um gato. Eu fico pensando que já tenho 25 anos e que só tenho 25 anos. Eu fico pensando que até exatos 30 dias atrás eu tinha passado a minha vida inteira com ela. Eu fico fazendo cálculos numa matemática da qual eu nunca gostei e concluo que é possível que a minha vida inteira com ela corresponda a apenas um terço daquilo que será a minha vida inteira. E eu fico querendo ouvir a sua voz mais uma vez cantando alguma canção em castelhano ou alguma moda de viola, como quando eu descobri que ela começava a partir e saí do trabalho no meio do expediente para encontrar CDs de coisas como Cascatinha e Inhana e Nho Belarmino e Nha Gabriela para ouvirmos juntas. E eu lamento por ainda não ter comigo nenhum pequeno que pudesse tê-la conhecido.

 Ao ver o tal passarinho na chuva, me lembrei de uma música que ela amava e se chamava “Passarinho Prisioneiro”, uma parte da letra dizia “que sempre em festa, eu tive o céu para voar” e fiquei tranquila pelo passarinho, talvez ele só estivesse dançando e cantando “I’m singing in the rain” em sua cabecinha de passarinho.

pequeno dicionário de palavras bonitas

sim, eu me lembro como se fosse hoje. eu fiquei cerca de quatro horas sentado naquele corredor frio e branco, mas tão branco, de um jeito que incomodava. e a coisa toda parecia que nunca ia acontecer, o que, até certo ponto, me aliviava, porque, sinceramente, eu sei-lá como a vida seria depois disso. ninguém tá realmente preparado, ninguém é forte o bastante pra lidar tranquilamente com a morte. por mais que a gente se prepare, leia livros, artigos, pesquise no Google, não há um tutorial pra esse tipo de coisa. ninguém realmente tá preparado, ninguém é forte o bastante pra lidar tranquilamente com a vida.

então, eu tava alí tentando estabelecer um plano, tentando transformar uma vida inteira. é claro que vocês vão pensar que eu tive tempo, que eu deveria ter pensado nisso antes, que foram meses até que chegasse a hora, mas foi somente naquele momento que eu consegui pensar. é aquela coisa, seu time passa o campeonato inteiro perdendo, jogando mal e aí na última rodada, no último jogo, o rebaixamento já está consumado, você sabe disso. mas você assiste o jogo e tem esperança, sabe-se lá em que ou por que, mas você tem. e aí quando acaba e o teu time tá na segunda divisão, você fica puto, chateado, culpa o juiz, o outro time lá que tava praticamente na mesma situação, mas que resolveu ganhar no último jogo, essas coisas. é assim, sabe? não que eu esteja culpando alguém, não, não, nada disso. eu só tô tentando explicar que certas coisas demoram pra fazer sentido. é tipo acabar o namoro, mas só conseguir seguir em frente ao ver a sua ex-namorada toda feliz com outro cara. é um tapa na cara, todo mundo precisa de um tapa na cara.

a verdade é que depois dessas quatro horas eu ainda não sabia o que seria da vida. a gente saiu do hospital e foi pra casa com uma certa tranquilidade, mas é assustador e também é avassalador ao mesmo tempo. e eu não falo por mim, porque tá tudo bem, digamos que eu tenha adquirido habilidades pra lidar com a vida, mas é que semana passada eu vi um grupinho de crianças brincando no parquinho perto de casa e isso me deixou pra lá de deprimido. eles estavam lá brincando e cantando aquelas musiquinhas típicas de criança, aquelas que servem só pra infernizar a vida daqueles mais fraquinhos ou diferentes. e no cantinho da caixa de areia, tinha uma garotinha sozinha agitando os braços rapidamente de um jeito meio violento até, sem levantar a cabeça. logo em seguida, o grupinho se aproximou dela, fez uma roda e aumentou o volume daquela cantoria insuportável. eu tive uma vontade súbita de me jogar no meio daquela criançada, pegar a menina no colo e sair correndo daquele lugar, mas aí pensei que poderiam achar que fosse sequestro, que eu fosse algum tipo de estuprador ou qualquer coisa terrível do gênero.

eu até me aproximei, mas chegou uma mulher, que eu deduzi ser a mãe da garotinha, e as crianças se dispersaram. ela veio até mim e disse pra eu não me incomodar, porque as crianças não iam fazer nada demais e que a pequena Julia estava bem. segundo a mulher, a menina tinha um poder especial e conseguia se defender das provocações da maneira mais genial possível, é só ela tapar os ouvidos e olhos e então ela consegue bloquear a entrada de informações em seu cérebro. ela tem o poder de bloquear todo o mundo exterior para não ficar sobrecarregada. “incrível, não é?”, ela disse. A mulher ainda falou que a pequena agitava os braços, porque tinha a sensação de eles estavam pegando fogo. eu não sou bom em dar continuidade a conversas com pessoas que não conheço, nunca fui. então, eu sorri, a mulher sorriu de volta e eu fui embora.

fiquei com essa história na cabeça por muito tempo, só conseguia pensar em como as crianças são cruéis, em como o mundo é cruel e em como aquela menininha se sentia. e foi alí nessas horas sentado no corredor do hospital, tentando controlar a minha angústia e ansiedade, que eu entendi do que se tratava essa tal preparação. e eu pensei que minha filha poderia não ter esse poder incrível de bloquear o mundo exterior e que talvez ela precisasse de alguma coisa para quando eu não estivesse por perto. comprei um caderninho na lojinha de lembranças do hospital e comecei a escrever, naquele momento a minha ideia era escrever um livro. contar coisas legais para que ela pudesse ler e se sentir melhor, quando estivesse triste. é claro que essas coisas legais e histórias que eu quis e tentei escrever não renderam nada. porque, sendo bem realista, eu não sou um escritor, mesmo que sonhasse em ser. o fato é que eu pensei em várias palavras bonitas e escrevi uma em cada página do caderinho, com a esperança de escrever uma história para cada uma delas mais tarde. Eu não consegui, o caderninho ficou só com as palavras mesmo e algumas definições abaixo delas, que eu mesmo inventei ou roubei.

hoje, eu tô aqui de volta, esperando em outro corredor daquele mesmo hospital e o branco nem me incomoda mais. tô com o pequeno dicionário de palavras bonitas nas mãos, foi esse o “título” que demos ao “meu livro”, ao caderninho. a definição da palavra que está na página marcada por ela pra mim diz ” palavra existente somente na língua portuguesa, é nossa e de mais ninguém. significa sentir falta e é bonita porque sentir falta querer de volta, querer por perto, é tipo amar”. os médicos falaram que não deve levar nem quatro horas, mas ainda sim a coisa toda parece que nunca vai acontecer, o que, até certo ponto, me alivia, porque, sinceramente eu sei-lá como a vida será depois disso.

exercícios para um começo – parte fim. recomeço.

há dias estou com essa vontade de escrever. há dias estou com essa vontade de chorar. começou numa certa manhã, quando lavei meus olhos e a água, somente a água, fez com que eles ardessem e algumas lágrimas caíssem. começou assim, a vontade de escrever. começou assim a vontade de chorar.

eu passei a semana toda pensando num bom começo, num lugar onde repousar essas doses de coisas que simplesmente não saem pela boca nos últimos tempos. essa falta de vontade de falar, essa falta de vontade de acreditar. e não falo isso porque não sou otimista, nem nada. bem longe disso, eu acredito. mas não há nada que doa mais do que se acreditar que certas coisas realmente são irremediáveis.

ela fala em milagres, de máquinas que se desligam e de pulmões que magicamente pulsam. e cá estamos sem acreditar em milagres. e cá estou eu, tentando me acostumar com a ideia de que havemos de morrer pra cima, como os homens fortes e como as mulheres fortes. mas não. estou tentando aprender a respirar como quem tem um quarto de um pulmão, mas chora silenciosamente com os dois olhos, sem derrubar uma  lágrima.

começo a pensar que essa vontade de escrever é uma vontade de mudar, de transformar os começos. de criar um mecanismo que faça com que uma garotinha de oito anos não fale coisas do tipo “e eu enforco você” para a sua própria avó. começo a pensar que essa vontade de escrever é a mesma vontade que tenho de chorar.

ou talvez seja apenas uma forma de dizer que as coisas bonitas, aquelas das quais podemos nos lembrar pro resto de nossas vidas, aquelas que nos fazem pessoas melhores, que nos fazem acreditar que quando as máquinas se desligam, o coração e todo um corpo voltam a pulsar, merecem um recomeço. aquelas coisas bonitas que simplesmente deixam de existir com o passar dos anos em meio à fumaça, que vão se tornando tão pequenas como uma abelhinha que voa pela sala e acaba por cair no chão, essas coisas merecem um grandioso, alegre e arrebatador recomeço. mesmo depois do fim, mesmo em outro coração.

e esse é o meu maior e último exercício para um começo.

exercícios para um começo – parte 2

eu gosto de escrever tudo em caixa baixa, letras minúsculas, mesmo quando se inicia um paragrafo. tenho a impressão de que as letras assim, todas iguais, ganham leveza e talvez um pouco de verdade. eu também tenho um sério problema em dar títulos para os textos, músicas ou qualquer coisa do gênero. e, sinceramente, não sei por que comecei isso aqui desse jeito.

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exercícios para um começo – parte 1.

O começo da primavera parece ser um bom começo para um texto, que talvez combine mais com inverno, tons de cinza, frio e essas coisas que remetem melancolia. É, talvez essa não seja uma boa ideia. Talvez o outono se aproximando do inverno seja mais adequado, mas, pela minha experiência de vida eu devia é mesmo começar com o começo do verão.

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aquele chão de ceras canário

Quanto tempo se passou desde a última vez que entrei na velha casa eu não sei ao certo, as visitas ao meu avô vinham sendo do portão pra fora, na maioria das vezes. Apesar disso, as memórias daquele portão cinza e da rua Carneiro Ribeiro, ainda sem asfalto, nunca foram distantes. Estão comigo, nas cicatrizes de tombos no cascalho dos meus joelhos.

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que seja doce.

já que eu não escrevo nada novo mesmo, segue aí um dos meus contos preferidos, de um dos meus escritores preferidos. e pra quem não sabe, é por causa disso tudo aí que eu tenho um “que seja doce” tatuado no pulso.

Os Dragões não conhecem o paraíso

Caio Fernando Abreu

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