eu moro na casa 7.

Aqui dentro é fora. E chove! Aqui dentro. Chove tempestades torrenciais dessas que destroem barragens, barreiras, telhados, alagam ruas, levam carros. Dessas que destroem casas e carros e famílias e pessoas e vidas e insetos. Aqui dentro é fora. E é seco. Lá fora. Seco dessas secas de desertos secos.

De desertos de areias, de desertos de oceanos, de desertos de ruas e cidades e pessoas e almas. Desertas. Aqui dentro é fora! E venta. Lá fora. Venta ventos desses que varrem as folhinhas do asfalto sujo no outono, no inverno, no verão. Na primavera não! Na primavera o vento não varre. O vento não varre nunca as margaridas coloridas da primavera e as folhinhas secas só são varridas na próxima estação. Na primavera nada se varre, nem o vento.

Aqui dentro é fora. Aqui dentro vai embora. Aqui dentro não mora. Aqui dentro demora. Aqui dentro é fossa. Aqui dentro é sujo. Aqui dentro faz frio. Aqui dentro é fossa, é sujo, faz frio e demora. Aqui dentro é foda!

Aqui dentro é roda. Aqui dentro é roda e roda. Aqui dentro é roda de samba, roda moinho, roda peão, roda gigante. Aqui dentro é roda gigante. Aqui dentro é roda gigante dessas que saem dos eixos e destroem parques de diversão. Aqui dentro é roda gigante dessas que saem dos eixos e destroem corações.

Aqui dentro é fora. É fora de controle, fora de si, fora de mim. Aqui dentro é fora. E é vazio. Aqui dentro. É cheio. Lá fora. Aqui dentro é fora. E é cheio. Lá fora. É cheio de rodas gigante dessas que destroem parques de diversão. É absurdamente cheio de rodas gigante que saem dos eixos e destroem parques de diversão.

Aqui dentro é fora. E é uma pracinha. Aqui dentro. É uma pracinha dessas de cidadezinhas pequenas do interior, aonde as famílias passam as tardes de domingo, com carrinhos de pipoca, doce, sorvete, balas, maçãs do amor. Amor. Aqui dentro é uma pracinha, dessas de cidadezinhas do interior onde se faz pic-nic à noite e pode se ver o céu mais cheio de estrelas.

Aqui dentro é fora. E não tinha espaço. Aqui dentro. Aqui dentro era cheio de rodas gigante dessas que destroem parques de diversão. Aqui dentro é vazio. Aqui dentro é fora, jogado tudo fora. Lá fora. Aqui dentro é fora. Fora rodas gigante dessas que destroem parques de corações.

Aqui dentro é vazio. Exceto pela pracinha da cidadezinha do interior, aonde existe o céu mais lindo, com estrelas mais brilhantes. Aqui dentro é vazio. Exceto pela pracinha da cidadezinha do interior com um banco. Um banco branco em meio a arvores de ipê. Roxo, rosa, amarelo. Em meio a um canteiro de margaridas. Aqui dentro é vazio, exceto pelo banco branco da pracinha. Exceto por você sentada no banco branco da pracinha, dessas de cidadezinhas do interior. Aqui dentro é a tua cidadezinha do interior.

Aqui dentro é vazio, exceto por você sentada no banco branco da pracinha a me esperar. Porque aqui dentro é atraso. Aqui dentro é vazio, exceto por você me esperando sentada no banco branco da pracinha, fumando um cigarro. Aqui dentro é vazio, exceto por você. Lá fora.

Aqui dentro é vazio. E chove. Aqui dentro é vazio, exceto por um guarda-chuva. Aqui dentro é um guarda-chuva. Um guarda-chuva com cabo branco e com tecido colorido em tons pastéis. Rosa, branco, azul, amarelo e verde. Tecido colorido desses que lembram doces.

Aqui dentro é a sétima casa. É você, teu guarda-chuva, o banco, a pracinha, o céu da uma cidadezinha do interior. Na sétima casa.

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