Uma porção de coisinhas não ditas em cima de um sofá verde.

Acham estranho, especialmente essa mania de andar sempre do lado esquerdo. TOC! Transtorno obsessivo compulsivo, diziam. Devia se tratar, diziam. Alguns se irritavam também com a mania de ficar sempre com alguma coisa rodando nas mãos, seja celular, pedaço de papel, apoio de copo, isqueiro. Gosta muito de rodar isqueiros. Também gostava de passar os isqueiros por entre os dedos como naqueles números, que os circos faziam em cidadezinhas do interior.

Quando criança tinha medo de ser seqüestrada por um desses circos.

Acham estranho, especialmente essa mania de andar sempre do lado do coração. TOC! Transtorno obsessivo compulsivo, diziam. Devia se tratar, diziam.

A menina meio morena tirou todos os isqueiros e também todas as coisas que podiam ser rodadas e estavam em cima da mesa.

–         Pára com isso garota. É irritante.

–         Promete não mais assoviar?

–         Promete que não vai mais bater na minha cabeça?

–         Prometo

–         Uhum.

A menina meio morena se aproximou e disse que um vidente – não sabia se era cigano, cartomante ou tarólogo – disse que se encontrariam e desencontrariam sempre. Destino, sabe como? Acho que não era mesmo um cigano, nem um cartomante e muito menos um tarólogo. Era sim tão só um vidente, desses que nascem com o sol na sétima casa e podem prever o futuro.

–         Ta vendo essa linha com várias ramificações e traço forte?

–         Qual? Essa aqui que é curta?

–         Essa!

–         Ah, não gosto dessa linha. Deve significar que vou morrer cedo.

–         Não! As ramificações significam os nossos desencontros e o traço forte sou eu.

–         Mas é curta!

–     A sua linha acaba aonde a minha acaba.

A menina loira olhou bem no fundo dos olhos castanhos da garota morena, de cabelos pretíssimos e que usava um acessório vermelho na camiseta. Uma cereja! Embora odiasse o gosto dessa fruta. A menina loira que olhou bem no fundo dos olhos castanhos da menina morena, de cabelos pretíssimos e que usava um acessório, também tinha uma cereja. A Páscoa deixava tudo doce, tudo muito doce.

–         Me conta algo que nunca tenha me dito! ?

–         Conta você também!

–         Eu já cheirei.

–         Eu sinto medo.

“Eu te deixo insegura”, pensou a menina morena, mas sequer abriu a boca. “Eu tenho muito medo de você”, pensou a menina loira, sem sequer abrir a boca também. As duas colecionavam uma porção de coisinhas não ditas e orgulhavam-se dessa coleção, embora nunca mostrassem pra ninguém. Nem mesmo pra elas mesmas.

–         Adoro nossas conversas. Você sabe né?!

–         Teve um momento que me marcou muito em nosso relacionamento. Na verdade, vários, mas esse em especial. Lembra de uma certa vez em que dormimos na casa de uma amiga?

–         Lembro lembro. (Falou essas duas palavras com um aperto no peito e uma vontade louca de chorar)

–         Foi a noite mais incrível! Nunca ninguém me olhou nos olhos como você me olhou naquela noite. Como você ainda me olha – pensou, mas não falou. Não fizemos sexo, não trepamos! Foi mais que isso! Eu podia sentir a tua alma, sentir a minha alma. E nesse momento eu queria ter te dito ‘eu te amo’, porque naquele momento eu estava te amando. Pensei, mas não disse.

A menina morena engole a saliva, como se engolisse no seco um gole de bebida dessas bem fortes e bem vagabundas. A menina morena engole a saliva e engole o choro. A menina morena, que nunca dizia ‘eu te amo’, também havia tido vontade de dizer ‘eu te amo’ naquele momento, naquele exato momento.

–         Estou escrevendo um livro.

–         É mesmo? Sempre gostei do que você escreve!

–         É, ele vai se chamar ‘A vida em cima de um sofá verde’.

–         Resolveu continuar essa história é?

–         Eu nunca parei.

–         Fala sobre a mesma coisa?

–   Sim, sobre a tua vida!

–  Mas eu nunca te contei nada.

–  Não precisa!

–  E como vai ser?

–  Triste! Vai começar pelo final em que você me liga e diz que largou o cigarro. Isso não é triste?

–  Isso é mentira! Eu nunca larguei o cigarro.

–  Eu sei. Eu inventei. E no meio de toda essa porção de coisas que tenho inventado você me liga e diz que largou o cigarro.Na verdade, você não me liga pra dizer que largou o cigarro. Porque nessa minha história você nunca fumou. Então você não me liga.

–  E como vai ser?

–  Não decidi. Tenho aqui ainda uma porção de coisinhas ainda não ditas.

–  Sobre a vida?

–  Não, sobre o sofá verde! Você me ajuda?

–  Me ajuda a escrever o livro da tua vida?!

–  Pra escrever o livro da minha vida, você precisa voltar a viver o livro da minha vida.

–  Não posso viver o livro da tua vida.

–  Por que?

–  Porque eu morri um pouco em cada página. Porque eu morri todas as páginas e capítulos e epígrafes e prólogos e epílogos. Porque eu morri no livro da tua vida e por isso eu estou inventando toda essa porção de coisinhas não ditas e por isso na minha porção de coisinhas não ditas você não me liga pra dizer que largou o cigarro. E por isso na minha porção de coisinhas não ditas você nunca fumou. E por isso na minha porção de coisinhas não ditas você não me liga pra dizer que me largou. E por isso na minha porção de coisinhas não ditas você nunca me amou.

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2 thoughts on “Uma porção de coisinhas não ditas em cima de um sofá verde.

  1. rsrs. não tinha pensando nisso.

    ah, é triste, mas that’s so last year!

    porque agora você me faz sorrir com o meu coração. e com todas as formiguinhas que correm desesperadamente dentro dele.

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