Epígrafe para um livro de silêncios

Certa vez eu escrevi um livro. de conto. conto calado. um livro com folhas amareladas, porque certa vez faz tempo. Certa vez as folhas foram bem branquinhas, folhas de nuvens que dançam dancinhas suaves pelo palco do céu azul em dias ensolarados de inverno. certa vez eu escrevi um livro, todo em silêncio. todo calado. calejado. um livro com folhas bem branquinhas de nuvens de silêncio.

A história do primeiro conto se passa em uma cidadezinha do interior, quase bucólica, se não fossem algumas fábricas que sustentam a economia local. Nessa cidadezinha um garotinho perdeu os pais e mora com os avós. O garotinho tem muitos amigos com quem costuma jogar bola e brincar de cirandas de roda. Muitos amigos. Com quem costuma brincar e dividir silêncios. Brincar de dividir silêncios. Silêncios de feridas ainda tão abertas. Silêncios de cortes tão mal costurados. Silêncios de tantos abraços de braços cruzados e beijos de lábios cerrados. Silêncios de lágrimas secas. Silêncios de pés descalços e doces na hora do almoço. Silêncios de brinquedos quebrados.

O garotinho sorri tanto, mesmo sendo pesado! Não se sabe como consegue carregar tanto peso naquele pequeno corpinho de criança. Cabelos castanho-clarinhos, pele clarinha, olhos castanho-clarinhos, bracinhos, perninhas, pezinhos e pintinhas. Também as pintinhas. Tudo tão pesado. O garotinho ainda fala com seus pais, mesmo morando com seus avós. Tudo tão pesado. Tudo tão silêncio. Silêncio de invernos rigorosos e de manhãs de grama branquinha de geada do Sul. Ele costuma deixar bilhetes de afeto em retalhos de folhas.

Muitos dos outros contos depois do primeiro conto contam aquilo que o primeiro conto quer contar, mas não conta. Até que a personagem do livro de silêncios muda, repentinamente. Muda a cidade. Muda de cidade. Depois de algumas páginas, mais precisamente na página 9, a garotinha passa a viver em uma grande metrópole. Na grande metrópole a garotinha ainda não tem grandes amigos para jogar bola e brincar de cirandas de roda. Na verdade, a garota não pensa mais em jogar bola e brincar de cirandas de roda, mas ainda sim sente falta de brincar de dividir silêncios. Agora os silêncios parecem gritar ainda mais. A garota começa a dividir silêncios com folhas bem branquinhas. Folhas bem branquinhas de nuvens que dançam dancinhas suaves pelo palco do céu azul em dias ensolarados de inverno. Eram seus preferidos. Os silêncios. E os dias. Também divide silêncios por entre as cordas de um desafinado violão. A garota passa a dividir os silêncios. Amigos. Mãe. Violão. Folhas. Não fala mais com o seu pai e nem mora com os seus avós. Os avós já não são plural.

A garota sorri tanto, mesmo sendo tão pesada! Não se sabe como consegue carregar tanto peso naquele corpo de adolescente. Cabelos loiros e compridos, pele clarinha, olhos castanho-clarinhos, braços, coxas, pés, peitos, pintinhas. Também as pintinhas. Tudo tão pesado. Tudo tão silêncio. Silêncio de infinitos corredores brancos de hospitais e de esperas intermináveis por presentes de Natal em março. Ela costuma escrever poemas de afeto em retalhos de folhas.

E é chegado o fim do livro. Na verdade, esse é apenas o primeiro de uma série de outros livros ainda não escritos, de epígrafes ainda não pensadas, de estórias não vividas. O começo do fim é tão o começo do fim de tantas outras coisas. Menos dos silêncios. A garota continua a dividir silêncios em folhas bem branquinhas de nuvens que dançam dancinhas suaves pelo palco do céu azul em dias ensolarados de inverno. Ainda são seus preferidos. Os dias. Também divide silêncios com a garota. Uma outra garota. E fala com seu pai. Os silêncios depois desse livro todo tornaram-se tão profundos. Silêncios de oceanos profundos e talvez jamais mergulhados. A garota agora gosta de silêncios. Do silêncio constrangedor. Paixão. E do silêncio confortável. Amor. Eram seus preferidos. Os do amor.

A garota sorri tanto, mesmo sendo tão pesada! Não se sabe como consegue carregar tanto peso naquele corpo jovem. Cabelos loiros, castanhos, pretos e ruivos, pele clarinha, olhos castanhos-clarinhos, braços, coxas, pés, peitos, desenhos no corpo, mais pintinhas. Também as pintinhas. Tudo tão pesado. Tudo tão pesado de silêncio. Dela e dos outros. Também carregava em silêncio o silêncio de todos os outros. Silêncios de olhares sem brilho, de sorrisos falsos, de injustiças, de amores perdidos, de eu te amo não dito, de verões nublados, de blocos de carnavais em preto e branco, de carros e ruas e cidades e camas vazias, de fome, de cânceres, de tentativas de fuga, de drogas, de sexos, de amores, de tentativas de suicídio, de venda de drogas, de venda de sexos, de venda de amores.

Ela colecionava silêncios de livros em branco, de fitas sem filmes, de rádios sem canções, de conversas sem diálogo, de vidas sem sentido, de vidas sem amor.

Certa vez eu escrevi um livro. de conto. conto calado. um livro com folhas amareladas, porque certa vez faz tempo. Certa vez as folhas foram bem branquinhas, folhas de nuvens que dançam dancinhas suaves pelo palco do céu azul em dias ensolarados de inverno. certa vez eu escrevi um livro, todo em silêncio. todo calado. calejado. um livro com folhas bem branquinhas de nuvens de silêncio. Certa vez eu escrevi um livro todo em silêncio. Silêncio confortável. O silêncio só era quebrado pela epígrafe que dizia algo mais ou menos assim:

“um dia você ainda vai receber

um pacote de retalhos de amor e a linha

da vida da tua mão ainda vai te levar

até onde bate o meu coração”.

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2 thoughts on “Epígrafe para um livro de silêncios

  1. Blog primoroso, com textos muito bem redigidos, este em especial!

    Encontrei por acaso, mas voltarei mais vezes, com certeza!

    Parabéns!

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