Estourando folhas de plástico bolha

ELE: E o que você sabe sobre rejeição e o que você sabe sobre pressão? Sobre ter o mundo inteiro em cima dos teus ombros? O que você pensa que sabe sobre a vida? Sobre escolhas, sobre o que é melhor ou pior, sobre o que é covardia? Numa hora você é uma criança super criativa e cheia de sonhos, brincando embaixo de um limoeiro e, num piscar de olhos, você está engravatado e ganhando a vida.

Eu penso que os sonhos, nossos maiores sonhos, aqueles que, em cima, você constrói a sua vida inteira. Aqueles que te preenchem, mesmo que somente na frente do espelho, no escuro do seu quarto, sem que nada de fato aconteça. Eu penso que estes, especialmente estes sonhos, você deve, inevitavelmente, realizar até os seus quinze anos de idade, como o primeiro filme do Spielberg. Depois disso, o tempo e o espaço costumam ser muito cruéis. É preciso crescer, é preciso fazer escolhas, é preciso pensar em futuro, em família, em carreira, em dinheiro, previdência privada, lareiras no inverno e viagens à Europa. O tempo é muito cruel, especialmente se você é um desses jovens que cresce tentando provar alguma coisa pra alguém como seu o pai. Quando você tem objetivos fortes e claros, os dias correm demais no seu calendário, é assim que funciona. Não há muito tempo para depressões, sentimentalismos, dores de cabeça e crises existenciais.

ELA: Você me culpa por seguir meus ideais, por fazer o que me dá na telha, por tentar ser feliz. Diferente de você, preso em ligações de celular, eventos, planilhas cheias de números que, no fundo, não te dizem nada.

ELE: Ah, faça-me um favor! Litros e litros de vodka e doses de sabe Deus o que, e uma crise imensa por causa das suas tentativas artísticas de quinta? Você não entende que ser uma fracassada é a uma opção muito mais fácil? Vamos combinar que pra ser uma fodida não é preciso muito esforço, não é mesmo? E eu acho que você nunca realmente tentou acelerar esse seu coração com coisas concretas. Acho mesmo que você tem mais medo que eu. Na verdade, a covarde aqui é você, meu bem.

ELA: Eu não tenho mais paciência pra você. Na verdade, eu não tenho mais nenhuma estrutura pra enfrentar tudo isso, pra seguir em frente, para escrever o “e foram felizes para sempre” dessa história.

ELE: Eu não disse? Olha, eu tenho um nó aqui na minha garganta e uma vontade de te chacoalhar, de jogar esses teus comprimidos pela janela, de fazer um furacão com esse teu arzinho de vítima. E daí que a sua vida foi uma grande porcaria? Sua avó falava com os passarinhos e com as abelhas e eles respondiam. Meus pais, meus pais dormiam em camas separadas e ele, ele nunca soube que eu gostava de escrever.  Você sabe o que é ser um desses garotos terríveis em qualquer tipo de esporte, que passam as aulas de educação física estourando folhas de plástico bolha ou jogando xadrez? Um desses moleques que um dia resolve que vai treinar beisebol, todo determinado, e não é escolhido por nenhuma porra de time? E que apesar de ser excelente em matemática e em todas as outras matérias, quando aparece um B+, o seu pai envia aquele olhar de reprovação? Eu passei a minha vida toda abaixando a cabeça pra esse olhar do meu pai e de todas as outras pessoas, porque pra mim, todas me olhavam da mesma forma. A única pessoa pra quem olhar não significava me sentir menor, um verme, a pior das criaturas, era você. Por que não podemos simplesmente viver isso tudo? Por que a gente não constrói logo essa ponte de safena? Você arruma um emprego, me faz feliz depois de um dia longo e cansativo. Sem crises existenciais, sem novas tentativas artísticas de quinta. Não?

ELA: Não! Eu não vou viver uma vidinha medíocre ao teu lado, eu não vou fingir sorrisos e felicidades, quando o que eu quero mesmo é me jogar pela janela.

ELE: Você não entende mesmo. É preciso uma puta de uma coragem para praticar o desapego, pra deixar certas coisas pra trás, pra largar os filmes do Godard, as aulas de balé, as palavras. Você não percebe que eu preciso mais do que tudo da porra da coragem para olhar nos olhos do meu pai? É preciso ter coragem para ser infeliz.

Anúncios

5 thoughts on “Estourando folhas de plástico bolha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s