aquele chão de ceras canário

Quanto tempo se passou desde a última vez que entrei na velha casa eu não sei ao certo, as visitas ao meu avô vinham sendo do portão pra fora, na maioria das vezes. Apesar disso, as memórias daquele portão cinza e da rua Carneiro Ribeiro, ainda sem asfalto, nunca foram distantes. Estão comigo, nas cicatrizes de tombos no cascalho dos meus joelhos.

Dessa vez, ao passar pelo portão, que hoje em dia range um ruído de abandono, senti uma vontade imensa de chorar. Não sei explicar muito bem o por quê. A pintura da casa que antes era em tons marrons e gelo descasca pedaços de solidão e cai pelas calçadas como folhas de um outono quieto, misturando-se ao mato que toma conta dos jardins e do resto do terreno.

Se eu fechasse meus olhos por alguns instantes veria tudo aquilo diferente, grande e bonito, como era, como sempre foi e talvez como sempre será pra mim. A área da frente de piso vermelho brilhando aquele brilho de cera canário, daquelas de latas, terríveis de passar, daquelas que faz sua mãe te proibir de andar só de meias. Minha vó sentada na área lateral da casa fumando seu cigarro e conversando com os passarinhos, a rede pendurada, minha bicicleta rosa com rodinha de apoio de um lado só e pares de chinelo na beira do degrau.

Pisei com cuidado na área de madeira que dá acesso à porta da cozinha, tudo parece tão frágil como a saúde de um velhinho solitário, que costumava pescar todos os finais de semana. Finalmente entrei na velha casa, fui direto à janela dos fundos com vista para o quintal e depois para meu antigo quarto. Aquele cheiro do passado impregnado em cada pedacinho de madeira, em cada móvel, em cada janela e a vontade de chorar, que não passou até agora, aumentando.

não sei bem se foi alí que cresci. É tão absurdo como as coisas mudam tão radicalmente e ao mesmo tempo continuam iguais, o quadro do Bambi na parede, o freezer e a bicama na sala, os cachorros novos presos nos mesmos lugares. Mas pra onde foram os passarinhos, o fogão a lenha e a amoreira do quintal?

Pensei que ia encontrar mais gente na casa, mas só estava meu avô mesmo. Larguei as sacolas com as compras do mercado que levamos pra ele e fiquei pensando em que dia da semana acontecem os almoços de domingo agora! No próximo mês eu venho pra cá no dia certo e pego todo mundo em casa e não posso esquecer de trazer um porta-retratos pro velho.

Quanto tempo se passou desde todo mundo deixou a velha casa eu não sei ao certo, mas não tinha asfalto na rua. Pra onde todo mundo foi ninguém sabe ao certo, mas falta um pouco de afeto na rua.

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