talvez ele só estivesse dançando e cantando “I’m singing in the rain” em sua cabecinha de passarinho.

Essa noite eu sonhei que tinha um cachorro, um cachorro grande e peludo morando comigo no meu apartamento. Pra quem não me conhece isso é até bem normal, mas a verdade é que a minha relação com animais de estimação e até mesmo animais em geral não é assim coisa de filme da sessão da tarde. Não gosto muito de bicho não! Acho fedido, incômodo, não sei lidar. Não sei lidar com lambidas, pulos, cara de cachorro que se perdeu na mudança, latidos, miados, ou qualquer outra dessas estranhas demonstrações de afeto. Talvez eu tenha medo, algum trauma, sei lá. Ou só não goste mesmo.

Mas eu também não odeio, acho fofinho, bonito, respeito muito, jamais maltrataria, poderia até mesmo entrar para alguma ONG e defender alguma causa ambiental. Eu me pergunto se eu amaria e aprenderia a conviver com um bichinho, caso tivesse um. Enfim, por isso tudo é estranho eu sonhar que tinha um cachorro. Talvez eu devesse jogar no bicho, mas tenho medo de começar a jogar e de repente perder o controle, como o meu avô. Diferente de mim, meu avô gosta de bichos. Ele vem nos visitar, quase sempre porque precisa ir ao médico, e nunca fica mais que um dia. Ele diz que precisa voltar para dar de comer aos cachorros. O engraçado é que quando está em sua cidade, por vezes ele mesmo se esquece de alimentá-los.

Voltando ao meu sonho, às vezes gosto de buscar umas interpretações malucas praquilo que sonhei. Certa vez sonhei que eu trabalhava e era amiga da Angelina Jolie e do Brad Pitt, parei de gostar deles, porque no meu sonho todos aqueles filhos adotivos deles eram somente fachada. Um dos moleques falou algo em seu dialeto e eu perguntei pra Angelina o que ele havia dito. Ela não sabia, fiquei chocada ao saber que depois de anos ela não tinha aprendido a falar com o seu próprio filho e nem tinha mandado a criança aprender inglês. Como pode uma mãe não saber conversar com o seu próprio filho? Eu acho esse sonho um dos mais engraçados e a minha interpretação maluca me diz que um dia vou conhecer o casal, contar essa história, eles vão rir e quem sabe me adotar também. Quem sabe eu não sou o trigésimo filho Brangelina?! E sobre o meu sonho com o cachorro. Bem, às vezes eu deixo de tentar interpretar os sonhos, porque as interpretações podem nem ser tão malucas assim.

Minha avó também tinha uma relação esquisita com os animais, ela não era o tipo de pessoa que você poderia dizer que amava um cachorrinho ou gatinho, por exemplo. Mas ela passava manhãs e tardes na área lá de casa jogando migalhas de pão e conversando com os passarinhos. E adorava filmes com animais. Isso sem falar nas galinhas que criava no quintal, acho que desde os meus dez anos de idade eu sei contar as estórias das galinhas e assim mesmo eu amava ouvir tudo de novo quase que todo final de semana. Tinha a estória da galinha que sumiu e ela encontrou virada de barriga pra cima, de pernas pro ar na área da cozinha. Ela pensou que a galinha tinha até morrido, nunca tinha visto nenhuma sequer fazer isso! Acontece que a bonita estava é tomando sol, ou algo assim. A outra estória era da galinha que perseguia a minha tia no quintal e que só obedecia a minha vó, ela dizia que essa galinha até dançava.  Se eu fechar os olhos, consigo ver a minha avó imitando a galinha dançando. Isso sem falar nas abelhas, acho que minha avó nunca matou uma abelinha sequer. Não que abelha seja assim um animal de estimação… Então, minha avó conversava com elas até elas irem embora. Queria eu saber fazer o mesmo hoje em dia.

Talvez eu tenha sonhado com um cachorro, porque fiquei com dó de um passarinho num dia desses. Caía uma chuva torrencial aqui e ao olhar pela janela da sacada de casa vi um passarinho na rua, sem proteção alguma debaixo daquela tempestade. Ele deveria estar morrendo de frio, será que teria pra onde ir, teria se perdido do resto da sua família? Fiquei me perguntando o que se passava com aquele serzinho sozinho ali no meio do nada, no meio de tanta água. Nesse mesmo dia eu tinha olhado o céu poucas horas antes da tempestade e estava incrivelmente estrelado e minha vó dizia que quando tinha estrelas no outro dia faria sol. Gosto bastante de olhar o céu. Acho que é mais uma das coisas que herdei dela. Ela saía praticamente toda noite para olhar as estrelas, mais especificamente uma estrela, que brilhava sempre no mesmo lugar. Engraçado que daqui, da cidade que moro hoje não consigo dizer qual é. Mas eu sei exatamente o lugar da calçada da antiga casa na outra cidade em que ela parava e pra onde ela olhava.

Eu fico pensando que talvez devesse dar uma chance a um cachorro ou a um gato. Eu fico pensando que já tenho 25 anos e que só tenho 25 anos. Eu fico pensando que até exatos 30 dias atrás eu tinha passado a minha vida inteira com ela. Eu fico fazendo cálculos numa matemática da qual eu nunca gostei e concluo que é possível que a minha vida inteira com ela corresponda a apenas um terço daquilo que será a minha vida inteira. E eu fico querendo ouvir a sua voz mais uma vez cantando alguma canção em castelhano ou alguma moda de viola, como quando eu descobri que ela começava a partir e saí do trabalho no meio do expediente para encontrar CDs de coisas como Cascatinha e Inhana e Nho Belarmino e Nha Gabriela para ouvirmos juntas. E eu lamento por ainda não ter comigo nenhum pequeno que pudesse tê-la conhecido.

 Ao ver o tal passarinho na chuva, me lembrei de uma música que ela amava e se chamava “Passarinho Prisioneiro”, uma parte da letra dizia “que sempre em festa, eu tive o céu para voar” e fiquei tranquila pelo passarinho, talvez ele só estivesse dançando e cantando “I’m singing in the rain” em sua cabecinha de passarinho.

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