se trata aqui de um paradoxo.

não se trata aqui de uma compilação de histórias de amor, muito embora toda história de amor seja mesmo uma compilação de tantas outras histórias de amor. e de arrependimento.

 engraçado como alguém que sempre falou muito, de repente perde as palavras pelo ar. eu fico imaginando o que se passava na cabeça dela quando disse sim. porque muitas vezes depois o que ele tinha eram as suas negativas. certa vez ela disse sim. e partiu.

 se trata aqui de uma compilação de histórias de amor, que, por hora, busca em outras histórias de amor algo que lhe empreste um pouco de saúde. como se fosse possível haver algum espaço limpo dentro dos pulmões.

e eu passo a escrever o futuro, ainda que incerto e inseguro. escrevo esperanças, felicidades, sexo, viagens, textos em blogs, músicas e até peças de teatro. eu posso até escrever que quero mesmo é encontrar a felicidade numa dessas horinhas de descuido. eu escrevo sim.

não se trata aqui de finais felizes. aqui os finais não são felizes e nem sequer tristes, são apenas o que são. e andam por aí como se nada tivesse acontecido, independente da nossa vontade.

eu queria mesmo é descobrir no que você está pensando agora, nesse exato momento e nesses outros exatos momentos que se passaram desde a sua entrada aqui no leito cinco. logo você, que sempre conversou comigo sobre tudo, agora não consegue nem me olhar nos olhos direito. eu queria ter tido aquela conversa que se espera ter, sabe? dessas de filme, em que uma pessoa abre verdadeiramente o seu coração para outra, diz suas últimas palavras, faz seus últimos pedidos.

se trata aqui de equações não resolvidas, não pela falta de inteligência, mas por outra falta. se trata aqui de um paradoxo: como ser feliz e triste ao mesmo tempo?

a verdade é que cheguei nesse estranho não lugar e eu me perco nesses acordes feitos em um piano bicolor na minha cabeça. e aí, numa tentativa de respiração boca-a-boca, eu escrevo. mas o tempo começa a corroer aquelas palavrinhas adocicadas do café da manhã. e você sente culpa por algum momento de felicidade e se culpa por todo momento de tristeza. e você não sente nada, porque não consegue ser feliz. e nem triste.

não se trata aqui exatamente de recomeços, mas de partidas e viagens. e bem sabemos que algumas viagens são absurdamente longas e simplesmente não te enviam postais ou retornam para a casa.

eu queria mesmo é me mudar logo, sabe? a casa nova tem um quintal enorme, tem árvores e eu vou plantar o que eu quiser, também quero criar galinhas. a casa novas tem três quartos, um deles é pra quando vocês forem lá me visitar. tá ficando tão bonita, finalmente vou ter sossego.

se trata aqui de uma tentativa de descoberta, de acomodar tudo aquilo que pairava somente em seu olhar e hoje adormece comigo.

eu queria mesmo é esticar aquele espaço de tempo entre a esperança e o inevitável, que não durou mais do que trinta passos e uma ligação.

se trata aqui de equações não resolvidas, não pela falta de inteligência, mas por outra falta. se trata aqui de um paradoxo: como ser feliz e triste ao mesmo tempo?

se eu morresse agora, estaria pensando no que as pessoas pensam antes de morrer. será o coração que avisa o cérebro que é chegada a hora, ou o cérebro que avisa o coração? ou será a mão da sua filha mais nova junto da tua?

dói quando se morre?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

exercícios para um começo – parte fim. recomeço.

há dias estou com essa vontade de escrever. há dias estou com essa vontade de chorar. começou numa certa manhã, quando lavei meus olhos e a água, somente a água, fez com que eles ardessem e algumas lágrimas caíssem. começou assim, a vontade de escrever. começou assim a vontade de chorar.

eu passei a semana toda pensando num bom começo, num lugar onde repousar essas doses de coisas que simplesmente não saem pela boca nos últimos tempos. essa falta de vontade de falar, essa falta de vontade de acreditar. e não falo isso porque não sou otimista, nem nada. bem longe disso, eu acredito. mas não há nada que doa mais do que se acreditar que certas coisas realmente são irremediáveis.

ela fala em milagres, de máquinas que se desligam e de pulmões que magicamente pulsam. e cá estamos sem acreditar em milagres. e cá estou eu, tentando me acostumar com a ideia de que havemos de morrer pra cima, como os homens fortes e como as mulheres fortes. mas não. estou tentando aprender a respirar como quem tem um quarto de um pulmão, mas chora silenciosamente com os dois olhos, sem derrubar uma  lágrima.

começo a pensar que essa vontade de escrever é uma vontade de mudar, de transformar os começos. de criar um mecanismo que faça com que uma garotinha de oito anos não fale coisas do tipo “e eu enforco você” para a sua própria avó. começo a pensar que essa vontade de escrever é a mesma vontade que tenho de chorar.

ou talvez seja apenas uma forma de dizer que as coisas bonitas, aquelas das quais podemos nos lembrar pro resto de nossas vidas, aquelas que nos fazem pessoas melhores, que nos fazem acreditar que quando as máquinas se desligam, o coração e todo um corpo voltam a pulsar, merecem um recomeço. aquelas coisas bonitas que simplesmente deixam de existir com o passar dos anos em meio à fumaça, que vão se tornando tão pequenas como uma abelhinha que voa pela sala e acaba por cair no chão, essas coisas merecem um grandioso, alegre e arrebatador recomeço. mesmo depois do fim, mesmo em outro coração.

e esse é o meu maior e último exercício para um começo.