exercícios para um começo – parte fim. recomeço.

há dias estou com essa vontade de escrever. há dias estou com essa vontade de chorar. começou numa certa manhã, quando lavei meus olhos e a água, somente a água, fez com que eles ardessem e algumas lágrimas caíssem. começou assim, a vontade de escrever. começou assim a vontade de chorar.

eu passei a semana toda pensando num bom começo, num lugar onde repousar essas doses de coisas que simplesmente não saem pela boca nos últimos tempos. essa falta de vontade de falar, essa falta de vontade de acreditar. e não falo isso porque não sou otimista, nem nada. bem longe disso, eu acredito. mas não há nada que doa mais do que se acreditar que certas coisas realmente são irremediáveis.

ela fala em milagres, de máquinas que se desligam e de pulmões que magicamente pulsam. e cá estamos sem acreditar em milagres. e cá estou eu, tentando me acostumar com a ideia de que havemos de morrer pra cima, como os homens fortes e como as mulheres fortes. mas não. estou tentando aprender a respirar como quem tem um quarto de um pulmão, mas chora silenciosamente com os dois olhos, sem derrubar uma  lágrima.

começo a pensar que essa vontade de escrever é uma vontade de mudar, de transformar os começos. de criar um mecanismo que faça com que uma garotinha de oito anos não fale coisas do tipo “e eu enforco você” para a sua própria avó. começo a pensar que essa vontade de escrever é a mesma vontade que tenho de chorar.

ou talvez seja apenas uma forma de dizer que as coisas bonitas, aquelas das quais podemos nos lembrar pro resto de nossas vidas, aquelas que nos fazem pessoas melhores, que nos fazem acreditar que quando as máquinas se desligam, o coração e todo um corpo voltam a pulsar, merecem um recomeço. aquelas coisas bonitas que simplesmente deixam de existir com o passar dos anos em meio à fumaça, que vão se tornando tão pequenas como uma abelhinha que voa pela sala e acaba por cair no chão, essas coisas merecem um grandioso, alegre e arrebatador recomeço. mesmo depois do fim, mesmo em outro coração.

e esse é o meu maior e último exercício para um começo.

Epígrafe para um livro de silêncios

Certa vez eu escrevi um livro. de conto. conto calado. um livro com folhas amareladas, porque certa vez faz tempo. Certa vez as folhas foram bem branquinhas, folhas de nuvens que dançam dancinhas suaves pelo palco do céu azul em dias ensolarados de inverno. certa vez eu escrevi um livro, todo em silêncio. todo calado. calejado. um livro com folhas bem branquinhas de nuvens de silêncio.

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Uma porção de coisinhas não ditas em cima de um sofá verde.

Acham estranho, especialmente essa mania de andar sempre do lado esquerdo. TOC! Transtorno obsessivo compulsivo, diziam. Devia se tratar, diziam. Alguns se irritavam também com a mania de ficar sempre com alguma coisa rodando nas mãos, seja celular, pedaço de papel, apoio de copo, isqueiro. Gosta muito de rodar isqueiros. Também gostava de passar os isqueiros por entre os dedos como naqueles números, que os circos faziam em cidadezinhas do interior.

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