aquele chão de ceras canário
Quanto tempo se passou desde a última vez que entrei na velha casa eu não sei ao certo, as visitas ao meu avô vinham sendo do portão pra fora, na maioria das vezes. Apesar disso, as memórias daquele portão cinza e da rua Carneiro Ribeiro, ainda sem asfalto, nunca foram distantes. Estão comigo, nas cicatrizes de tombos no cascalho dos meus joelhos.
Dessa vez, ao passar pelo portão, que hoje em dia range um ruído de abandono, senti uma vontade imensa de chorar. Não sei explicar muito bem o por quê. A pintura da casa que antes era em tons marrons e gelo descasca pedaços de solidão e cai pelas calçadas como folhas de um outono quieto, misturando-se ao mato que toma conta dos jardins e do resto do terreno.
Se eu fechasse meus olhos por alguns instantes veria tudo aquilo diferente, grande e bonito, como era, como sempre foi e talvez como sempre será pra mim. A área da frente de piso vermelho brilhando aquele brilho de cera canário, daquelas de latas, terríveis de passar, daquelas que faz sua mãe te proibir de andar só de meias. Minha vó sentada na área lateral da casa fumando seu cigarro e conversando com os passarinhos, a rede pendurada, minha bicicleta rosa com rodinha de apoio de um lado só e pares de chinelo na beira do degrau.
Pisei com cuidado na área de madeira que dá acesso à porta da cozinha, tudo parece tão frágil como a saúde de um velhinho solitário, que costumava pescar todos os finais de semana. Finalmente entrei na velha casa, fui direto à janela dos fundos com vista para o quintal e depois para meu antigo quarto. Aquele cheiro do passado impregnado em cada pedacinho de madeira, em cada móvel, em cada janela e a vontade de chorar, que não passou até agora, aumentando.
“Então foi aqui que você cresceu?!”, ela me perguntou em tom de afirmação. Eu respondi que sim e mostrei o resto que ainda resta da casa. Mas não sei bem se foi alí que cresci. É tão absurdo como as coisas mudam tão radicalmente e ao mesmo tempo continuam iguais, o quadro do Bambi na parede, o freezer e a bicama na sala, os cachorros novos presos nos mesmos lugares. Mas pra onde foram os passarinhos, o fogão a lenha e a amoreira do quintal?
Pensei que ia encontrar mais gente na casa, mas só estava meu avô mesmo. Larguei as sacolas com as compras do mercado que levamos pra ele e fiquei pensando em que dia da semana acontecem os almoços de domingo agora! No próximo mês eu venho pra cá no dia certo e pego todo mundo em casa e não posso esquecer de trazer um porta-retratos pro velho.
Quanto tempo se passou desde todo mundo deixou a velha casa eu não sei ao certo, mas não tinha asfalto na rua. Pra onde todo mundo foi ninguém sabe ao certo, mas falta um pouco de afeto na rua.
o que é pra ser uma canção
Ela sai de casa
vai pra beira do mar
Deixa a areia tímida
faz o sol se acanhar
Ela deita no sofá
e ouve uma canção
Na vitrola Beach Boys
God Only Knows
Vou descer a serra
congestionamento
Cinco ou seis horas
chego com o sol nascendo
Que é pra te ajudar
Com o protetor solar
fator 15
Amarrar o teu bikini
E no domingo quando o sol se esconder no cinza
Vou ouvir a sua voz nos versos de um samba-canção
E aí o meu mundo se pinta e a garoa fina faz
Margaridas e girassóis
Menina de temperaturas míninas perto dos 30 graus
Menina do carnaval em Superagui
Eu falo daquilo que trago, entre um copo e um cigarro
Falo daquilo que grita dentro do silêncio da respiração
Vou te levar
Te levar pra casa
Menina, menina, menina, me-nina, nina.
que seja doce.
já que eu não escrevo nada novo mesmo, segue aí um dos meus contos preferidos, de um dos meus escritores preferidos. e pra quem não sabe, é por causa disso tudo aí que eu tenho um “que seja doce” tatuado no pulso.
Os Dragões não conhecem o paraíso
Caio Fernando Abreu
Tenho um dragão que mora comigo.
Não, isso não é verdade.
Não tenho nenhum dragão. E, ainda que tivesse, ele não moraria comigo nem com ninguém. Para os dragões, nada mais inconcebível que dividir seu espaço – seja com outro dragão, seja com uma pessoa banal feito eu. Ou invulgar, como imagino que os outros devam ser. Eles são solitários, os dragões. Quase tão solitários quanto eu me encontrei, sozinho neste apartamento, depois de sua partida. Digo quase porque, durante aquele tempo em que ele esteve comigo, alimentei a ilusão de que meu isolamento para sempre tinha acabado. E digo ilusão porque, outro dia, numa dessas manhãs áridas da ausência dele, felizmente cada vez menos freqüentes (a aridez, não a ausência), pensei assim: Os homens precisam da ilusão do amor da mesma forma que precisam da ilusão de Deus. Da ilusão do amor para não afundarem no poço horrível da solidão absoluta; da ilusão de Deus, para não se perderem no caos da desordem sem nexo.
Isso me pareceu gradiloqüente e sábio como uma idéia que não fosse minha, tão estúpidos costumam ser meus pensamentos. E tomei nota rapidamente no guardanapo do bar onde estava. Escrevi também mais alguma coisa que ficou manchada pelo café. Até hoje não consigo decifrá-la. Ou tenho medo da minha – felizmente indecifrável – lucidez daquele dia.
Estou me confundindo, estou me dispersando.
O guardanapo, a frase, a mancha, o medo – isso deve vir mais tarde. Todas essas coisas de que falo agora – as particularidades dos dragões, a banalidade das pessoas como eu -, só descobri depois. Aos poucos, na ausência dele, enquanto tentava compreendê-lo. Cada vez menos para que minha compreensão fosse sedutora, e cada vez mais para que essa compreensão ajudasse a mim mesmo a. Não sei dizer. Quando penso desse jeito, enumero proposições como: a ser uma pessoa menos banal, a ser mais forte, mais seguro, mais sereno, mais feliz, a navegar com um mínimo de dor. Essas coisas todas que decidimos fazer ou nos tornar quando algo que supúnhamos grande acaba, e não há nada a ser feito a não ser continuar vivendo.
Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante.
Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se não fosse nada.
Ninguém perguntará coisa alguma, penso. Depois continuo a contar para mim mesmo, como se fosse ao mesmo tempo o velho que conta e a criança que escuta, sentado no colo de mim. Foi essa a imagem que me veio hoje pela manhã quando, ao abrir a janela, decidi que não suportaria passar mais um dia sem contar esta história de dragões. Consegui evitá-la até o meio da tarde. Dói, um pouco. Não mais uma ferida recente, apenas um pequeno espinho de rosa, coisa assim, que você tenta arrancar da palma da mão com a ponta de uma agulha. Mas, se você não consegue extirpá-lo, o pequeno espinho pode deixar de ser uma pequena dor para se transformar numa grande chaga.
Assim, agora, estou aqui. Ponta fina de agulha equilibrada entre os dedos da mão direita, pairando sobre a palma aberta da mão esquerda. Algumas anotações em volta, tomadas há muito tempo, o guardanapo de papel do bar, com aquelas palavras sábias que não parecem minhas e aquelas outras, manchadas, que não consigo ou não quero ou finjo não poder decifrar.
Ainda não comecei.
Queria tanto saber dizer Era uma vez. Ainda não consigo.
Mas preciso começar de alguma forma. E esta, enfim, sem começar propriamente, assim confuso, disperso, monocórdio, me parece um jeito tão bom ou mau quanto qualquer outro de começar uma história. Principalmente se for uma história de dragões.
Gosto de dizer tenho um dragão que mora comigo, embora não seja verdade. Como eu dizia, um dragão jamais pertence a, nem mora com alguém. Seja uma pessoa banal igual a mim, seja unicórnio, salamandra, harpia, elfo, hamadríade, sereia ou ogro. Duvido que um dragão conviva melhor com esses seres mitológicos, mais semelhantes à natureza dele, do que com um ser humano. Não que sejam insociáveis. Pelo contrário, às vezes um dragão sabe ser gentil e submisso como uma gueixa. Apenas, eles não dividem seus hábitos.
Ninguém é capaz de compreender um dragão. Eles jamais revelam o que sentem. Quem poderia compreender, por exemplo, que logo ao despertar (e isso pode acontecer em qualquer horário, às três ou às onze da noite, já que o dia e a noite deles acontecem para dentro, mas é mais previsível entre sete e nove da manhã, pois essa é a hora dos dragões) sempre batem a cauda três vezes, como se tivessem furiosos, soltando fogo pelas ventas e carbonizando qualquer coisa próxima num raio de mais de cinco metros? Hoje, pondero: talvez seja essa a sua maneira desajeitada de dizer, como costumo dizer agora, ao despertar – que seja doce.
Mas no tempo em que vivia comigo, eu tentava – digamos – adaptá-lo às circunstâncias. Dizia por favor, tente compreender, querido, os vizinho banais do andar de baixo já reclamaram da sua cauda batendo no chão ontem às quatro da madrugada. O bebê acordou, disseram, não deixou ninguém mais dormir. Além disso, quando você desperta na sala, as plantas ficam todas queimadas pelo seu fogo. E, quanto você desperta no quarto, aquela pilha de livros vira cinzas na minha cabeceira.
Ele não prometia corrigir-se. E eu sei muito bem como tudo isso parece ridículo. Um dragão nunca acha que está errado. Na verdade, jamais está. Tudo que faz, e que pode parecer perigoso, excêntrico ou no mínimo mal-educado para um humano igual a mim, é apenas parte dessa estranha natureza dos dragões. Na manhã, na tarde ou na noite seguintes, quanto ele despertasse outra vez, novamente os vizinhos reclamariam e as prímulas amarelas e as begônias roxas e verdes, e Kafka, Salinger, Pessoa, Clarice e Borges a cada dia ficariam mais esturricados. Até que, naquele apartamento, restássemos eu e ele entre as cinzas. Cinzas são como sedas para um dragão, nunca para um humano, porque a nós lembra destruição e morte, não prazer. Eles trafegam impunes, deliciados, no limiar entre essa zona oculta e a mais mundana. O que não podemos compreender, ou pelo menos aceitar.
Além de tudo: eu não o via. Os dragões são invisíveis, você sabe. Sabe? Eu não sabia. Isso é tão lento, tão delicado de contar – você ainda tem paciência? Certo, muito lógico você querer saber como, afinal, eu tinha tanta certeza da existência dele, se afirmo que não o via. Caso você dissesse isso, ele riria. Se, como os homens e as hienas, os dragões tivessem o dom ambíguo do riso. Você o acharia talvez irônico, mas ele estaria impassível quanto perguntasse assim: mas então você só acredita naquilo que vê? Se você dissesse sim, ele falaria em unicórnios, salamandras, harpias, hamadríades, sereias e ogros. Talvez em fadas também, orixás quem sabe? Ou átomos, buracos negros, anãs brancas, quasars e protozoários. E diria, com aquele ar levemente pedante: “Quem só acredita no visível tem um mundo muito pequeno. Os dragões não cabem nesses pequenos mundos de paredes invioláveis para o que não é visível”.
Ele gostava tanto dessas palavras que começam com in – invisível, inviolável, incompreensível -, que querem dizer o contrário do que deveriam. Ele próprio era inteiro o oposto do que deveria ser. A tal ponto que, quando o percebia intratável, para usar uma palavra que ele gostaria, suspeitava-o ao contrário: molhado de carinho. Pensava às vezes em tratá-lo dessa forma, pelo avesso, para que fôssemos mais felizes juntos. Nunca me atrevi. E, agora que se foi, é tarde demais para tentar requintadas harmonias.
Ele cheirava a hortelã e alecrim. Eu acreditava na sua existência por esse cheiro verde de ervas esmagadas dentro das duas palmas das mãos. Havia outros sinais, outros augúrios. Mas quero me deter um pouco nestes, nos cheiros, antes de continuar. Não acredite se alguém, mesmo alguém que não tenha um mundo pequeno, disser que os dragões cheiram a cavalos depois de uma corrida, ou a cachorros das ruas depois da chuva. A quartos fechados, mofo, frutas podres, peixe morto e maresia – nunca foi esse o cheiro dos dragões.
A hortelã e alecrim, eles cheiram. Quando chegava, o apartamento inteiro ficava impregnado desse perfume. Até os vizinhos, aqueles do andar de baixo, perguntavam se eu andava usando incenso ou defumação. Bem, a mulher perguntava. Ela tinha uns olhos azuis inocentes. O marido não dizia nada, sequer me cumprimentava. Acho que pensava que era uma dessas ervas de índio que as pessoas costumam fumar quando moram em apartamentos, ouvindo música muito alto. A mulher dizia que o bebê dormia melhor quando esse cheiro começava a descer pelas escadas, mais forte de tardezinha, e que o bebê sorria, parecendo sonhar. Sem dizer nada, eu sabia que o bebê sonhava com dragões, unicórnios ou salamandras, esse era um jeito do seu mundo ir-se tornando aos poucos mais largo. Mas os bebês costumam esquecer dessas coisas quanto deixam de ser bebês, embora possuam a estranha facilidade de ver dragões – coisa que só os mundos muito largos conseguem.
Eu aprendi o jeito de perceber quando o dragão estava a meu lado. Certa vez, descemos juntos pelo elevador com aquela mulher de olhos-azuis-inocentes e seu bebê, que também tinha olhos-azuis-inocentes. O bebê olhou o tempo todo para onde estava o dragão. Os dragões param sempre do lado esquerdo das pessoas, para conversar direto com o coração. O ar a meu lado ficou leve, de uma coloração vagamente púrpura. Sinal que ele estava feliz. Ele, o dragão, e também o bebê, e eu, e a mulher, e a japonesa que subiu no sexto andar, e um rapaz de barba no terceiro. Sorríamos suaves, meio tolos, descendo juntos pelo elevador numa tarde que lembro de abril – esse é o mês dos dragões – dentro daquele clima de eternidade fluida que apenas os dragões, mas só às vezes, sabem transmitir.
Por situações como essa, eu o amava. E o amo ainda, quem sabe mesmo agora, quem sabe mesmo sem saber direito o significado exato dessa palavra seca – amor. Se não o tempo todo, pelo menos quanto lembro de momentos assim. Infelizmente, raros. A aspereza e avesso parecem ser mais constantes na natureza dos dragões do que a leveza e o direito. Mas queria falar de antes do cheiro. Havia outros sinais, já disse. Vagos, todos eles.
Nos dias que antecediam a sua chegada, eu acordava no meio da noite, o coração disparado. As palmas das mãos suavam frio. Sem saber porque, nas manhãs seguintes, compulsivamente eu começava a comprar flores, limpar a casa, ir ao supermercado e à feira para encher o apartamento de rosas e palmas e morangos daqueles bem gordos e cachos de uvas reluzentes e berinjelas luzidias (os dragões, descobri depois, adoram contemplar berinjelas) que eu mesmo não conseguia comer. Arrumava em pratos, pelos cantos, com flores e velas e fitas, para que os espaços ficassem mais bonito.
Como uma fome, me dava. Mas uma fome de ver, não de comer. Sentava na sala toda arrumada, tapete escovado, cortinas lavadas, cestas de frutas, vasos de flores – acendia um cigarro e ficava mastigando com os olhos a beleza das coisas limpas, ordenadas, sem conseguir comer nada com a boca, faminto de ver. À medida que a casa ficava mais bonita, eu me tornava cada vez mais feio, mais magro, olheiras fundas, faces encovadas. Porque não conseguia dormir nem comer, à espera dele. Agora, agora vou ser feliz, pensava o tempo todo numa certeza histérica. Até que aquele cheiro de alecrim, de hortelã, começasse a ficar mais forte, para então, um dia, escorregar que nem brisa por baixo da porta e se instalar devagarzinho no corredor de entrada, no sofá da sala, no banheiro, na minha cama. Ele tinha chegado.
Esses ritmos, só descobri aos poucos. Mesmo o cheiro de hortelã e alecrim, descobri que era exatamente esse quando encontrei certas ervas numa barraca de feira. Meu coração disparou, imaginei que ele estivesse por perto. Fui seguindo o cheiro, até me curvar sobre o tabuleiro para perceber: eram dois maços verdes, a hortelã de folhinhas miúdas, o alecrim de hastes compridas com folhas que pareciam espinhos, mas não feriam. Pergunte o nome, o homem disse, eu não esqueci. Por pura vertigem, nos dias seguintes repetia quanto sentia saudade: alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim hortelã alecrim.
Antes, antes ainda, o pressentimento de sua visita trazia unicamente ansiedade, taquicardias, aflição, unhas roídas. Não era bom. Eu não conseguia trabalhar, ira ao cinema, ler ou afundar em qualquer outra dessas ocupações banais que as pessoas como eu têm quando vivem. Só conseguia pensar em coisas bonitas para a casa, e em ficar bonito eu mesmo para encontrá-lo. A ansiedade era tanta que eu enfeiava, à medida que os dias passavam. E, quando ele enfim chegava, eu nunca tinha estado tão feio. Os dragões não perdoam a feiúra. Menos ainda a daqueles que honram com sua rara visita.
Depois que ele vinha, o bonito da casa contrastando com o feio do meu corpo, tudo aos poucos começava a desabar. Feito dor, não alegria. Agora agora agora vou ser feliz, eu repetia: agora agora agora. E forçava os olhos pelos cantos de prata esverdeadas, luz fugidia, a ponta em seta de sua cauda pela fresta de alguma porta ou fumaça de suas narinas, sempre mau, e a fumaça, negra. Naqueles dias, enlouquecia cada vez mais, querendo agora já urgente ser feliz. Percebendo minha ânsia, ele tornava-se cada vez mais remoto. Ausentava-se, retirava-se, fingia partir. Rarefazia seu cheiro de ervas até que não passasse de uma suspeita verde no ar. Eu respirava mais fundo, perdia o fôlego no esforço de percebê-lo, dias após dia, enquanto flores e frutas apodreciam nos vasos, nos cestos, nos cantos. Aquelas mosquinhas negras miúdas esvoaçavam em volta delas, agourentas.
Tudo apodrecia mais e mais, sem que eu percebesse, doído do impossível que era tê-lo. Atento somente à minha dor, que apodrecia também, cheirava mal. Então algum dos vizinhos batia à porta para saber se eu tinha morrido e sim, eu queria dizer, estou apodrecendo lentamente, cheirando mal como as pessoas banais ou não cheiram quando morrem, à espera de uma felicidade que não chega nunca. Ele não compreenderia. Eu não compreendia, naqueles dias – você compreende?
Os dragões, já disse, não suportam a feiúra. Ele partia quando aquele cheiro de frutas e flores e, pior que tudo, de emoções apodrecidas tornava-se insuportável. Igual e confundido ao cheiro da minha felicidade que, desta e mais uma vez, ele não trouxera. Dormindo ou acordado, eu recebia sua partida como um súbito soco no peito. Então olhava para cima, para os lados, à procura de Deus ou qualquer coisa assim – hamadríades, arcanjos, nuvens radioativas, demônios que fossem. Nunca os via. Nunca via nada além das paredes de repente tão vazias sem ele.
Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pântano de antes, cheio de possibilidades – que não aconteciam, mas que importa? – a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada.
Hoje, acho que sei. Um dragão vem e parte para que seu mundo cresça? Pergunto – porque não estou certo – coisas talvez um tanto primárias, como: um dragão vem e parte para que você aprenda a dor de não tê-lo, depois de ter alimentado a ilusão de possuí-lo? E para, quem sabe, que os humanos aprendam a forma de retê-lo, se ele um dia voltar?
Não, não é assim. Isso não é verdade.
Os dragões não permanecem. Os dragões são apenas a anunciação de si próprios. Eles se ensaiam eternamente, jamais estréiam. As cortinas não chegam a se abrir para que entrem em cena. Eles se esboçam e se esfumam no ar, não se definem. O aplauso seria insuportável para eles: a confirmação de que sua inadequação é compreendida e aceita e admirada, e portanto – pelo avesso igual ao direito – incompreendida, rejeitada, desprezada. Os dragões não querem ser aceitos. Eles fogem do paraíso, esse paraíso que nós, as pessoas banais, inventamos – como eu inventava uma beleza de artifícios para esperá-lo e prendê-lo para sempre junto a mim. Os dragões não conhecem o paraíso, onde tudo acontece perfeito e nada dói nem cintila ou ofega, numa eterna monotonia de pacífica falsidade. Seu paraíso é o conflito, nunca a harmonia.
Quando volto apensar nele, nestas noites em que dei para me debruçar à janela procurando luzes móveis pelo céu, gosto de imaginá-lo voando com suas grandes asas douradas, solto no espaço, em direção a todos os lugares que é lugar nenhum. Essa é sua natureza mais sutil, avessa às prisões paradisíacas que idiotamente eu preparava com armadilhas de flores e frutas e fitas, quando ele vinha. Paraísos artificiais que apodreciam aos poucos, paraíso de eu mesmo – tão banal e sedento – a tolerar todas as suas extravagâncias, o que devia lhe soar ridículo, patético e mesquinho. Agora apenas deslizo, sem excessivas aflições de ser feliz.
As manhãs são boas para acordar dentro delas, beber café, espiar o tempo. Os objetos são bons de olhar para eles, sem muitos sustos, porque são o que são e também nos olham, com olhos que nada pensam. Desde que o mandei embora, para que eu pudesse enfim aprender a grande desilusão do paraíso, é assim que sinto: quase sem sentir.
Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.
Nada, nada disso existe.
Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo:
- Dorme, só existe o sonho. Dorme, meu filho. Que seja doce.
Não, isso também não é verdade.
um amor de interurbanos
tenho que dizer
que o tempo passa devagar
pros livros na estante
pros lençóis verde-clarinhos
pra cerveja que já vai gelar
e pros meus braços a te esperar
tem pão-de-queijo no forno
e bolo de chocolate pra acompanhar
o teu café da tarde
ponha um disco pra tocar
a agulha a desenhar o teu cantinho
ah, como é bom voltar
jogar a estrada no chão da sala
e a bagagem no sofá
ah, como é bom voltar
o teu sorriso a desenhar
o meu cantinho
Sua história de amor no Festival de Teatro de Curitiba
A companhia Teatro de Breque irá selecionar material de pessoas do Brasil inteiro para incorporar na montagem da peça COM AMOR que será apresentada na edição de 2011 do festival
A companhia de teatro curitibana Teatro de Breque, vai selecionar contribuições de pessoas de todo o país para incrementar a construção da peça COM AMOR, quarta montagem do grupo, que será apresentada esse ano na Mostra Novos Repertórios do Festival de Teatro de Curitiba.
Até o dia 25 de fevereiro o grupo vai receber os materiais de quem deseja compartilhar sua história de amor no espetáculo. Para participar basta enviar a história ou um trecho dela, em forma de texto, poesia, imagem ou música para o e-mail: projetocomamor@gmail.com Toda contribuição recebida será postada no blog do grupo www.teatrodebreque.wordpress.com assim que recebida e os trechos selecionados para incorporar a peça serão divulgados na página e no perfil no Twitter da companhia (@teatrodebreque) no dia 1º de março. Os autores dos recortes usados na montagem terão seus nomes divulgados no programa da peça, ganharão dois convites para assistir a apresentação durante o Festival e receberão um kit especial com a gravação do espetáculo. Aqueles que não residirem em Curitiba e não puderem comparecer ao evento, receberão o kit em seus endereços.
O Festival de Curitiba é um dos festivais de teatro mais importantes do país, é o maior da América Latina, e já recebeu a visita de mais de 1,5 milhão de pessoas, desde a sua criação em 1992. No último ano a mostra apresentou quase 400 peças em sua programação, entre o Fringe e a Mostra Contemporânea. Além de promover encontros, cursos, palestras e oficinas sobre o assunto, o evento abre espaço para que os grupos também se organizem em mostras paralelas, como a Mostra Novos Repertórios, e desenvolvam outras formas de interação ao público. Dentro dessa abordagem e pensando na idéia de conteúdo colaborativo, muito utilizada nos últimos tempos por causa da internet e das redes sociais, o Teatro de Breque propõe essa nova forma de construção do texto dramático. “A técnica colaborativa já é bastante conhecida, principalmente pelas pessoas da área da tecnologia, e recentemente vem sendo usada por grandes artistas como o cineasta Tim Burton, que criou um conto colaborativo em seu perfil no Twitter. Outro exemplo é a banda Foo Fighters que está buscando na internet os diretores de seu novo vídeo-clipe”, conta a diretora da peça, Nina Rosa Sá. “Abrir esse espaço vai acrescentar muito à montagem e penso que para as pessoas será muito bacana ter um trecho de sua história de amor em uma peça de teatro”, diz Nina.
COM AMOR
O espetáculo, que estreará no dia 05 de abril no Festival de Curitiba, narra a tentativa de afeto entre um homem e uma mulher separados espacialmente e donos de personalidades bastante divergentes. Eles trocam correspondências durante toda a sua curta vida em uma tentativa de aproximação, porém sem conseguir concretizar suas expectativas de amor.
A narrativa então pretende criar um panorama que visite toda a vida deste casal de amantes cujo amor – metaforicamente em relação à satisfação artística de um criador – não se consuma. Propõe-se, a partir deste ponto de partida, a brincadeira e o exercício do não diálogo. Pois já que se fala da dificuldade em se estabelecer um diálogo entre duas pessoas, radicaliza-se o conceito. Como duas pessoas de mundos tão diferentes que nutrem um afeto recíproco estabelecem algum tipo de contato?
Teatro de Breque
O Teatro de Breque surgiu em 2007 e sua pesquisa se alicerça na horizontalização do processo criativo e na quebra do ilusionismo, bem como na construção de dramaturgias de cena que tratem de temas e questões contemporâneas.
Estourando folhas de plástico bolha
ELE: E o que você sabe sobre rejeição e o que você sabe sobre pressão? Sobre ter o mundo inteiro em cima dos teus ombros? O que você pensa que sabe sobre a vida? Sobre escolhas, sobre o que é melhor ou pior, sobre o que é covardia? Numa hora você é uma criança super criativa e cheia de sonhos, brincando embaixo de um limoeiro e, num piscar de olhos, você está engravatado e ganhando a vida. Eu penso que os sonhos, nossos maiores sonhos, aqueles que, em cima, você constrói a sua vida inteira. Aqueles que te preenchem, mesmo que somente na frente do espelho, no escuro do seu quarto, sem que nada de fato aconteça. Eu penso que estes, especialmente estes sonhos, você deve, inevitavelmente, realizar até os seus quinze anos de idade, como o primeiro filme do Spielberg. Depois disso, o tempo e o espaço costumam ser muito cruéis. É preciso crescer, é preciso fazer escolhas, é preciso pensar em futuro, em família, em carreira, em dinheiro, previdência privada, lareiras no inverno e viagens à Europa. O tempo é muito cruel, especialmente se você é um desses jovens que cresce tentando provar alguma coisa pra alguém como seu o pai. Quando você tem objetivos fortes e claros, os dias correm demais no seu calendário, é assim que funciona. Não há muito tempo para depressões, sentimentalismos, dores de cabeça e crises existenciais.
ELA: Você me culpa por seguir meus ideais, por fazer o que me dá na telha, por tentar ser feliz. Diferente de você, preso em ligações de celular, eventos, planilhas cheias de números que, no fundo, não te dizem nada.
ELE: Ah, faça-me um favor! Litros e litros de vodka e doses de sabe Deus o que, e uma crise imensa por causa das suas tentativas artísticas de quinta? Você não entende que ser uma fracassada é a uma opção muito mais fácil? Vamos combinar que pra ser uma fodida não é preciso muito esforço, não é mesmo? E eu acho que você nunca realmente tentou acelerar esse seu coração com coisas concretas. Acho mesmo que você tem mais medo que eu. Na verdade, a covarde aqui é você, meu bem.
ELA: Eu não tenho mais paciência pra você. Na verdade, eu não tenho mais nenhuma estrutura pra enfrentar tudo isso, pra seguir em frente, para escrever o “e foram felizes para sempre” dessa história.
ELE: Eu não disse? Olha, eu tenho um nó aqui na minha garganta e uma vontade de te chacoalhar, de jogar esses teus comprimidos pela janela, de fazer um furacão com esse teu arzinho de vítima. E daí que a sua vida foi uma grande porcaria? Sua avó falava com os passarinhos e com as abelhas e eles respondiam. Meus pais, meus pais dormiam em camas separadas e ele, ele nunca soube que eu gostava de escrever. Você sabe o que é ser um desses garotos terríveis em qualquer tipo de esporte, que passam as aulas de educação física estourando folhas de plástico bolha ou jogando xadrez? Um desses moleques que um dia resolve que vai treinar beisebol, todo determinado, e não é escolhido por nenhuma porra de time? E que apesar de ser excelente em matemática e em todas as outras matérias, quando aparece um B+, o seu pai envia aquele olhar de reprovação? Eu passei a minha vida toda abaixando a cabeça pra esse olhar do meu pai e de todas as outras pessoas, porque pra mim, todas me olhavam da mesma forma. A única pessoa pra quem olhar não significava me sentir menor, um verme, a pior das criaturas, era você. Por que não podemos simplesmente viver isso tudo? Por que a gente não constrói logo essa ponte de safena? Você arruma um emprego, me faz feliz depois de um dia longo e cansativo. Sem crises existenciais, sem novas tentativas artísticas de quinta. Não?
ELA: Não! Eu não vou viver uma vidinha medíocre ao teu lado, eu não vou fingir sorrisos e felicidades, quando o que eu quero mesmo é me jogar pela janela.
ELE: Você não entende mesmo. É preciso uma puta de uma coragem para praticar o desapego, pra deixar certas coisas pra trás, pra largar os filmes do Godard, as aulas de balé, as palavras. Você não percebe que eu preciso mais do que tudo da porra da coragem para olhar nos olhos do meu pai? É preciso ter coragem para ser infeliz.
vem comigo.
Hoje eu esqueci as sacolas de compras no mercado,Troquei minhas chaves de chaveiro.
Hoje eu tirei o dia pra dizer que isso é apenas mais um passo,
Que do teu lado…
Meus anos passam rápido por entre os meses do teu calendário.
Hoje eu arrumei todas as minhas coisas e naquela gaveta esquecida
encontrei sua fita de cabelo preferida.
Guardei no bolso do casaco, que é teu, e que eu levo sempre na mochila.
Achei também meus óculos, já tão cansados da tevê e dos seriados,
cheios de saudade dos domingos em calçadas de petit pavê.
Hoje eu te proíbo de falar, de olhar e de me amar com estes olhos,
que recolhem todo o sentimento.
Hoje eu te proíbo de falar, de beijar e de amar com esses lábios
que recolhem todo o desejo.
Hoje eu te proíbo de falar, de falar e de me falar essas palavras
que recolhem todo o sentido.
Hoje eu me proíbo de voltar, de subir as escadas e escutar
essa conversa toda de que “eu sei que vou te amar”.
Hoje eu me proíbo de falar, de te amar e de tocar
qualquer canção do Chico que possa te agradar.
Hoje eu me proíbo de não acreditar, de não beijar e de não amar seus lábios
mesmo não tendo sentido, mesmo não estando sentindo
qualquer coisa ou qualquer sorriso leve
que me leve o sofrimento
e te faça descobrir, ainda que no último momento, que as chaves ainda estão lá.
Canção sobre palavras cruzadas
Certo dia, ouvi você dizer
“Quero ir embora, largar tudo, sumir”
Queria ter te dito “vem comigo”
Eu arrumo um quarto lá em casa e
Até um lugar pra você costurar
A gente poderia tomar um café, falar de amenidades
Ver sessão da tarde
E sentar na varanda à noitinha pra fumar
E eu sorrio com aquele cheiro de pão fresquinho que acabou de assar
Menina sai da rua que sua mãe já deve chegar
Não lave o cabelo, leve casaco que pode esfriar
Use sua mente, não tome remédio, não ande descalço
Leite com mel, pra dor melhorar
Eu sei, é tarde pra viver a vida, sonhar
Voltar pra antiga casa, parar de fumar
Largar os retalhos e até engordar
Mas, deixa isso pra lá
Deixa os outros pra lá
Que o que você tem
Você tem pra me dar
Um sorriso, uma piada
Essa cor de todas as cores do seu olhar
Quando te pego no colo, te escuto, cutuco
Ou te ajudo com as palavras cruzadas em inglês
Senta aqui do meu lado que eu ainda não sei
Como cantar Paloma, passar a roupa, dizer eu te amo
E cortar a grama.
sobre uma menina e só.
Menina dos olhos acesos às cinco da manhã
Menina do timbre de voz à lá Nara Leão
Teu cheiro me acorda a alma e me faz sorrir com o coração
Ao abrir a janela dos olhos nesse inverno tardio
Quando o sol se esconde no cinza
Ouço tua voz nos versos de um samba-canção
E aí meu mundo se pinta e a garoa fina
Faz margaridas e jardins de girassóis
Menina de temperaturas míninas perto dos 30 graus
Menina do carnaval em Superagui
Eu falo de junho passado, daquele feriado
E o que o inverno, a primavera, o verão, o outono e o inverno seguinte
Trouxeram pra mim
Eu falo daquilo que trago, entre um copo e um cigarro,
Aquilo que grita dentro do silêncio da respiração
Menina dos sims e do para sempre
Menina, menina, menina, me-nina, nina.
